DOMINGO DE CRISTO REI
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Juízo Final Capela Sistina Vaticano |
«Sentar-Se-á no seu trono glorioso
e separará uns dos outros»
A Palavra deste dia...
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando o Filho do homem vier na sua glória com todos os seus Anjos, sentar-Se-á no seu trono glorioso. Todas as nações se reunirão na sua presença e Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e Me recolhestes; não tinha roupa e Me vestistes; estive doente e viestes visitar-Me; estava na prisão e fostes ver-Me’. Então os justos Lhe dirão: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome e Te demos de comer, ou com sede e Te demos de beber? Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos, ou sem roupa e Te vestimos? Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’. E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’. Dirá então aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava sem roupa e não Me vestistes; estive doente e na prisão e não Me fostes visitar’. Então também eles Lhe hão-de perguntar: ‘Senhor, quando é que Te vimos com fome ou com sede, peregrino ou sem roupa, doente ou na prisão, e não Te prestámos assistência?’. E Ele lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer’. Estes irão para o suplício eterno e os justos para a vida eterna».
Mt 25, 31-46
A palavra da Igreja…
Chegamos ao último domingo do ano litúrgico, no qual celebramos a festa de Cristo Rei. O Evangelho faz-nos assistir ao último acto da história: o juízo universal. Que diferença há entre esta cena e a de Cristo ante os juizes na sua Paixão! Então, todos estavam sentados e Ele de pé, encadeado; agora todos estão de pé e Ele está sentado no trono. Os homens e a história julgaram Cristo: nesse dia, Cristo julgará os homens e a história. Perante Ele decide-se quem permanece em pé e quem cai. Esta é a fé imutável da Igreja que no seu Credo proclama: «De novo virá com glória para julgar vivos e mortos, e seu reino não terá fim».
Desde há uns anos, restaurou-se o fresco do juízo universal de Miguel Ângelo da Capela Sistina. Mas há outro juízo universal que há que restaurar: não está pintado em paredes de ladrilho, mas no coração dos cristãos. Ficou totalmente descolorado e está convertendo-se em ruínas. «O mais além, e com ele o juízo, converteu-se em uma brincadeira, em algo tão incerto que se diverte pensando que havia uma época na qual esta ideia transformava toda a existência humana» (Soren Kierkegaard). Alguém poderia tentar consolar-se, dizendo que, depois de tudo, o dia do juízo está muito longe, talvez faltem milhões de anos. Mas Jesus, desde o Evangelho, responde: «Idiota! Ainda esta noite te reclamarão a alma» (Lc 12, 20).
O tema do juízo se entrecruza, na liturgia de hoje, com o de Jesus Bom Pastor. No salmo responsorial diz-se: «O Senhor é meu Pastor, nada me faltará: em verdes prados me faz repousar» (Sl 22, 1-2). O sentido está claro: agora Cristo se revela a nós como Bom Pastor; um dia se verá obrigado a ser nosso Juiz. Agora é o tempo da misericórdia, então será o tempo da justiça. A nós cabe escolher, enquanto estamos a tempo.
Raniero Cantalamessa, OFM Cap
Pregador da Casa Pontifícia
A Palavra faz-se oração...
Nesta última semana do Ano Litúrgico, a Santa Igreja sugere aos fiéis que considerem o destino último do mundo e da história: Cristo, Rei do Universo, que há-de vir para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim. No Ofício Divino desta semana pede-se que se reze este impressionante hino litúrgico do século XIII, Dies Irae, atribuído ao frade franciscano Tommaso de Celano.
Dia de ira, aquele dia,
Volve o mundo em cinza fria: Diz David e a Sibila.
Que terror não há-de haver,
Quando Deus comparecer Nos sepulcros ressoando,
Vai a tuba convocando Os mortos a tribunal.
A terra inteira estremece,
Quando o homem comparece Um livro será trazido,
Em que tudo está contido Para o mundo ser julgado.
Quando o Juiz Se sentar,
Tudo se há-de revelar: A justiça e o pecado.
Pobre de mim, que direi,
Que patrono invocarei Ao ver o justo em temor?
Rei de excelsa majestade,
Que salvais só por bondade, Salvai-me no vosso amor.
Recordai-Vos, bom Jesus:
Por mim deixastes os Céus, Não me condeneis então.
A buscar-me Vos cansastes,
Pela Cruz me resgatastes: Tanta dor não seja em vão.
Justo Juiz do castigo,
Usai de graça comigo Antes de chegar o fim.
Como réu envergonhado,
Sinto-me tremer, culpado: Tende compaixão de mim.
A pecadora absolvendo
E o bom ladrão acolhendo, Grande esperança me dais.
Embora não seja digno,
Vós me livrareis, benigno, Dos tormentos infernais.
Entre os cordeiros contado,
Dos precitos separado, Ponde-me à vossa direita.
Repelidos os malvados
E a vivas chamas lançados,
Suba eu à pátria eleita.
Com profunda contrição
Imploro o vosso perdão:
Ajudai-me na agonia.
Quando nesse triste dia,
Das cinzas em que jazia, Ressurgir o homem réu,
Perdoai-lhe, Deus do Céu.
Jesus, Deus de majestade,
Vivo esplendor da Trindade, Contai-nos entre os eleitos.
Amen.Contemplar a Palavra...
O hino Dies Irae foi musicado por praticamente todos os grandes compositores clássicos para a liturgia dos defuntos. Destaque particular é o motete Pie Iesu, inspirado na parte final deste hino latino, que mereceu inúmeras composições. Mais recentemente o grande compositor de musicais da Broadway, Andrew Lloyd Webber, compôs este Pie Iesu para as exéquias de seu pai. Aqui interpretado, na presença do autor, pela sublime Sarah Brightman.
http://www.youtube.com/watch?v=u3zVb0BcrYE
Diácono Francisco Claro